QUEM SOU EU?

No dia a dia, digo que odeio a corrupção. Reclamo que o Brasil não cresce, não evolui e sofre com a má representação política. Afirmo que sou contra a liberação das drogas, contra o avanço da violência, contra a precariedade da educação, da saúde pública e da falta de infraestrutura
Mas, na hora de votar, escolho candidatos que, em muitos aspectos, defendem ideias completamente diferentes daquelas em que digo acreditar.
Quem sou eu?
Afirmo querer um país melhor, mas, contraditoriamente, me vendo e justifico o meu voto dizendo que escolhi "o menos corrupto". Aceito promessas que, muitas vezes, não passam de discursos eleitorais. Acredito em projetos que prometem acabar com a pobreza, embora alguns sobrevivam justamente da existência dela, como quem quebra as pernas de alguém para depois oferecer as muletas.
Quem sou eu?
Entro em disputas entre esquerda e direita sem sequer compreender, muitas vezes, o verdadeiro significado dessas correntes políticas. Repito discursos prontos, reproduzo narrativas e passo a defender grupos que se alimentam da minha desinformação, da minha ingenuidade e da minha falta de senso crítico.
Quem sou eu?
Digo defender a família, os amigos e a convivência em paz. No entanto, por causa da política, promovo intrigas, rompo amizades e, em casos extremos, até parto para agressões, defendendo pessoas que, muitas vezes, enxergam o eleitor apenas como instrumento para alcançar o poder.
Quem sou eu?
Sou como o rato que lambe uma lima, imaginando que o sangue vem do metal, quando, na verdade, é a própria língua que está sendo ferida.
Quem sou eu?
Defendo o meu corrupto de estimação e, muitas vezes, ajo como se não me importasse com o futuro dos meus filhos, dos meus netos e de toda uma nação.
No fim das contas, talvez eu seja apenas mais um sócio do desastre que o país enfrenta. Talvez seja alguém facilmente enganado ou alguém que, por conveniência, pensa apenas em si mesmo. Talvez eu seja apenas massa de manobra, uma escada para maus representantes e, consequentemente, parte da desgraça que tanta gente.
Quem sou eu?
Certamente, represento uma parcela significativa do eleitorado brasileiro.
Em um ambiente onde a verdade é rara, os projetos deixam de ser para o povo, e cargos e gabinetes luxuosos representam muito mais a esperteza de quem os ocupa do que a nobreza de representar uma nação inteira.
Por Vicentinho Almeida
